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POR LINHAS TORTAS
 

“Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Romanos 8:28)

Às vezes há períodos em nossas vidas em que tudo parece ter saído do roteiro. Olhamos à nossa volta e não encontramos sinais de que as promessas de Deus ou os sonhos que Ele plantou em nosso coração se cumprirão, tal a distância que parecemos estar do alvo final.

Imagine três manhãs na vida de Davi, o pastorzinho que acabou sendo rei de Israel. Aliás, o maior rei que aquele povo já teve! Como estamos adiante na história, sabemos tudo o que sucedeu e como as coisas cooperaram para que aquele homem desse certo na vida. Entretanto, para Davi não foi tão simples assim...

Imagine o dia em que Davi acordou (se é que ele conseguiu dormir), após ter recebido o grande profeta Samuel em sua casa e ter recebido dele a unção e a profecia de que seria rei de Israel. Ele não se continha de tanta excitação! Não poderia ser uma coincidência ou erro humano. Samuel era provado demais para ir à região de Belém em busca dele, com uma convicção tão forte no coração e se equivocar. Deus havia falado e, por mais incompreensível que fosse, naquele momento não havia dúvidas sobre o seu chamado e o êxito que o futuro lhe reservava.

Porém, o tempo começou a passar e as coisas não pareciam estar andando na direção correta. No começo, após receber o óleo da unção sobre sua cabeça, a rotina continuou e nada indicava uma mudança. Acordar cedo e cuidas de ovelhas todos os dias não parecia ser a vida de um rei.

O maior desafio, porém, na vida de Davi ainda estaria por vir. Por um lapso as coisas pareceram se encaixar. Ele derrotou Golias, foi convidado pelo rei Saul para fazer parte da côrte e ainda casou-se com sua filha, Mical. Não estava no trono, mas já vivia no palácio. Parece que tudo estava se encaminhando bem. Mas, de repente uma virada estranha. O rei que o promoveu passou a persegui-lo se causa, antipatia que virou ódio e obrigou Davi a fugir para as montanhas a fim de salvar a própria vida.

Imagine, então, uma outra manhã na vida deste belemita. Ele acorda numa caverna escura e mal-cheirosa. A perseguição implacável de Saul já dura meses e ainda se estenderá por longo tempo, obrigando-o viver escondendo-se, de caverna em caverna, de susto em susto.

O que ocupava a mente de Davi naquele tempo? Teria Deus perdido o controle de sua história? Teria o profeta se equivocado em sua profecia? Ou teria ele mesmo “viajado na maionese” e fantasiado um chamado que nunca existiu?

Um passeio pelos Salmos escritos por esse “homem da caverna” pode nos dar uma pista de quão confuso o seu coração se apresentou naquele duro e longo período. Os conflitos entre a fé e a lógica, a profecia e as evidências certamente aumentaram em muito o seu sofrimento. Suas palavras o revelam: “Tem misericórdia de mim, Senhor, porque sou fraco; sara-me, Senhor, porque os meus ossos estão perturbados. Até a minha alma está perturbada. E tu, Senhor, até quando?” (Sl 6:2,3)...“Por que te conservas longe, Senhor? Por que te escondes em tempo de angústia?” (Sl 10:1)...

“Até quando te esquecerás de mim, Senhor? Para sempre? Até quando esconderás de mim o teu rosto? Até quando consultarei com a minha alma, tendo tristeza no meu coração cada dia? Até quando se exaltará sobre mimo meu inimigo? Atenta em mim, ouve-me, Senhor, meu Deus; alumia os meus olhos para que eu não adormeça na morte; para que o meu inimigo não diga: Prevaleci contra ele; e os meus adversários se não alegrem, vindo eu a vacilar. Mas eu confio na tua benegnidade; na tua salvação, meu coração se alegrará” (Sl 13:1-5).

Estes são só alguns exemplos. O livro de Salmos está cheio de expressões desse conflito entre o coração que crê e a mente que duvida. E quando as circunstâncias estão servindo de argumento à mente, a luta fica ainda pior.

Mas, na vida de Davi, a fé prevaleceu! Ele conseguiu sustentar a confiança em Deus, mesmo quando este parecia tão alheio. Por isso, um dia as coisas voltaram ao eixo. Na verdade, nunca saíram. Imagine, então, uma outra manhã em sua vida: ele acordo no Palácio. O trono agora é seu. Israel vive o seu apogeu, o tempo das suas maiores conquistas. O exército implacável do rei tem como base alguns homens, agora chamados “os valentes de Davi”. Os mesmos desqualificados que um dia acordaram com ele na caverna de Adulão. Nos longos tempos de angústia, Deus forjou um rei diferente e um exército imbatível. Escrevendo certo por linhas tortas, mais uma vez Ele provou: “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8:28). Ainda que não co nsigamos entender...

Pr. Danilo Figueira