A vida cristã não é um conto de fadas. A bênção e a presença de Deus em nossas vidas não nos isentam de experimentar circunstâncias diversas e antagônicas que vão desde a glória até a mais profunda humilhação.
“Digo isto, não por causa da pobreza, porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação... Tudo posso naquele que me fortalece.” – Filipenses 4:11,13
Não é possível viver linearmente na presença de Deus, sempre na crista da onda. Como roupas que mudam, os panoramas nos quais estamos inseridos também variam e o segredo dos vencedores é guardar o coração firme na fé e dependente de Deus, a despeito do que se apresenta externamente.
Paulo conseguiu colocar isso em palavras muito sábias: “aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. Tanto sei estar humilhado como ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez; tudo posso naquele que me fortalece “ (Fp 4:11-13).
José, filho de Jacó, é alguém que viveu essa verdade de modo muito radical. Os ambientes de sua vida mudaram várias vezes e de maneira bastante diversa. Suas roupas foram trocadas, desafiando a estabilidade do seu coração, mas ele permaneceu firme, porque pautava-se na essência e não na aparência.
A primeira vez que vemos José mudar de roupa é quando seu pai, por amá-lo de uma forma especial (por ser ele o filho de sua velhice), lhe faz uma túnica talar colorida, distinta das de seus irmãos (conf. Gn 37:3-4). Aquela foi a primeira prova pela qual ele passou, ainda em tenra idade, pois a evidente predileção de Jacó por ele, despertou nos seus ir-mãos inveja e, depois, ódio.
Há momentos na vida em que parecemos ser os prediletos de Deus, ou da nossa casa, ou do cenário onde vivemos. As coisas parecem melhores para nós do que para aqueles que nos cercam. Por motivos que até mesmo desconhecemos, somos agraciados pela vida com riquezas que os outros não têm.
É preciso saber viver esses momentos. José, por exemplo, não permitiu que a aparente diferença o fizesse sentir-se superior aos seus irmãos. Em nenhum momento ele deixa de servi-los ou manifesta qualquer tipo de presunção. Mesmo quando apresenta seus sonhos, embora seja mal interpretado como alguém que quer impor-se sobre os mais velhos, o faz com o coração inocente de alguém que simplesmente acredita no que Deus diz, sem ver nisso um argumento de superioridade.
O problema é que a honra desperta inveja naqueles que têm o coração errado. Os irmãos de José passaram a odiá-lo pelo fato de que tudo lhe ia bem e a vida sorria para ele.
Será que você está pronto para ser provado nisso? Até mesmo a prosperidade tem o seu lado penoso. Quem recebe uma porção especial de Deus precisa entender que isso, por si só, levantará opositores e até inimigos. Guardar o coração santo, humilde, serviçal e limpo nessas circunstâncias é um desafio que precisará de aprendizado com o Espírito Santo.
A segunda ocasião em que vemos José mudando de roupa na Bíblia é uma situação de extrema perda. Seus irmãos, possuídos de inveja, tomam-lhe a túnica que ganhara de seu pai e vendem-no como escravo para uma caravana de ismaelitas (conf. Gn 37:23-28). De repente, sem que merecesse, esse jovem é subtraído de quase tudo o que tem: a túnica colorida, a liberdade, a companhia daqueles a quem ama, a dignidade... Eu disse “quase” tudo porque, mesmo em meio à traição e à injustiça, ele não perdeu sua principal riqueza: a fé e a dependência de Deus.
É duro admitir, mas mesmo na vida de gente fiel e inocente, as perdas acontecem e às vezes são devastadoras. Um dia isso cessará, quando estivermos na eternidade, mas por enquanto o que temos é a promessa de que Deus estará conosco no vale da sombra da morte e sua disposição de recolher nossas lágrimas no seu odre, enquanto não chega o tempo de enxugá-las completamente.
É muito difícil descer na vida (aos olhos humanos). Ter honra, riquezas, família, amigos e perder é, talvez, mais difícil que nunca ter tido. Ver a traição ou as surpresas da caminhada levando nossa túnica colorida é um golpe que destrói a alma humana, se ela não estiver cheia de fé. A de José estava. Por isso, as perdas não o derrubaram e muito menos o afastaram de Deus.
Aprender a lidar com as perdas é vital para qualquer pessoa, inclusive para o cristão. O triunfalismo é uma ilusão. Somos vencedores, sim, mas em meio a muitas tribulações. Foi por isso que Jesus nos exortou a ter bom ânimo para vencer o mundo.
A história de José só estava começando e Deus estava usando tudo, inclusive as crises, para revelar o que havia de mais precioso em seu coração. Mas ele ainda haveria de trocar de roupa outras vezes. Assim como nós...
Na próxima publicação seguiremos aprendendo com as mudanças na vida desse grande homem de Deus. Certamente, isso será consolo e exemplo para vencermos os nossos próprios desafios.
Edifique-se
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