Não ter dado à luz, nos tempos bíblicos, significava para uma mulher não ter cumprido sua missão, não ser útil, fracassar no sentido mais básico da vida... É terrível quando alguém acorda e sente que não faz a mínima diferença no mundo
"Canta alegremente, ó estéril, que não deste à luz; rompe em cântico, e exclama com alegria, tu que não tiveste dores de parto; porque mais são os filhos da mulher solitária, do que os filhos da casada, diz o Senhor.” - Isaías 54:1
Muitas vezes não fazemos ideia dos dramas que estão por trás de uma porta fechada. São muitas as pessoas que vivem uma vida de sofrimento, solidão, abandono, rejeição, fracasso.
A mulher descrita nesta passagem profética bem que pode representar a imensa maioria das vidas que estão à nossa volta. Embora ela não seja uma pessoa literal (é figura de Israel em seus tempos de exílio), pode ser vista como a fotografia de muita gente que conhecemos, às vezes disfarçando com um sorriso sua extrema infelicidade.
Ela representa gente estéril, que não consegue encontrar senso de valor na vida (”ó estéril, que não deste à luz”). Não ter dado à luz, nos tempos bíblicos, significava para uma mulher não ter cumprido sua missão, não ser útil, fracassar no sentido mais básico da vida... É terrível quando alguém acorda e sente que não faz a mínima diferença no mundo (nem mesmo no seu mundo).
Ela representa pessoas que nunca tiveram o prazer de uma realização. Diz o texto: ”tu que não tiveste dores de parto”. Ninguém passa pala vida sem enfrentar dores, mas o prazer de construir algo faz uma luta valer à pena. O problema é quando as pessoas não conseguem construir nada, não chegam nunca ao tempo da colheita, da realização...
Essa mulher representa também gente sozinha, que não tem com quem compartilhar o aperto do seu coração. O texto a chama de “mulher solitária”. A solidão é o pior tormento para a alma humana. Quem não tem com quem re-partir vitórias e lutas, quem não tem um ombro para chorar, um ouvido para desabafar, implode! Nunca houve tanta gente na Terra como hoje e nunca houve tantos solitários... E a pior solidão é a solidão de Deus, a sensação de que Ele está distante, alheio ou nem existe.
A personagem da profecia representa ainda pessoas humilhadas, marcadas por um estigma. Fala o texto bíblico: “a vergonha da tua mocidade”. No caso dessa mulher, a viuvez prematura a colocou no rol das pessoas que não têm valor. Ela foi marginalizada por uma fatalidade, por ter perdido prematuramente o marido. Outros são marginalizados por suas próprias escolhas. Não importa. A vergonha, a humilhação, o olhar de desdém faz com que a vida se torne muito pesada.
O contexto é de alguém que perdeu o marido e com ele a possibilidade de constituir uma família. Perder é às vezes mais difícil do que nunca ter. Gerar um sonho, investir num projeto e ver as coisas se desfazendo do dia para a noite é um golpe duro. Essa mulher ficou viúva na sua mocidade e não houve quem a resgatasse. Seu desamparo foi total... Enfim, ela representa uma geração que não tem horizonte, que não tem futuro. O que essa pessoa podia esperar da vida? Nada! Deus, porém, sempre tem uma perspectiva abençoada para todo ser humano. Ele não é alheio e nem refém da nossa história. Por mais destruída que seja uma vida, há uma virada possível na fé!
Para que esta virada aconteça, é preciso permitir que a Palavra de Deus redesenhe as nossas expectativas. Uma voz profética quebrou o silêncio do luto desta mulher solitária. No meio de sua realidade tão triste, Deus envia uma profecia de esperança, de mudança, de transformação. “Canta alegre-mente, ó estéril... porque mais são os filhos da mulher solitária, do que os filhos da casada, diz o Senhor”.
A única alternativa de cura para pessoas destruídas vem da Palavra de Deus. Somente ela pode recriar o horizonte, apresentar uma alternativa à vida. Portanto, é preciso dar ouvidos ao que Deus diz, abrir uma janela na alma para a luz da Palavra entrar.
A Palavra de Deus tem o poder de trazer à existência o que ainda não existe. Nada tem tanto poder quanto ela. Só isso explica a igreja cheia de pessoas que saíram da desilusão para a vida eterna, a vida de Deus. Aliás, a alternativa à desilusão não é a ilusão. É a realidade de Deus proposta pelo evangelho.
Mais do que dar ouvidos à Palavra, é preciso reposicionar a alma, conquistar as emoções com a fé. Refiro-me a reagir ao que Deus diz com uma nova postura interior, um novo ânimo, um novo humor.
A ordem é para a estéril fazer festa, para o fraco mostrar força, para o pobre sentir-se rico. “Canta alegremente, ó estéril, que não deste à luz; rompe em cântico, e exclama com alegria, tu que não tiveste dores de parto”. Se não mudar a nossa atitude interior, nada mudará à nossa volta. Se não conquistarmos nossa alma com a fé, o luto se perpetua.
O terceiro grande segredo para viver uma virada de Deus em nossa vida é dar passos práticos na direção do futuro, investir nas bases para um novo amanhã. O Senhor diz a essa mulher estéril: “Amplia o lugar da tua tenda, e estendam-se as cortinas das tuas habitações; não o impeças; alonga as tuas cordas, e fixa bem as tuas estacas “. Em outras palavras, comece a trabalhar pelos sonhos que o Espírito está plantando em você!
O futuro não pode ser algo que esperamos, mas para aonde construímos um caminho. A ordem de Deus é que esta mulher prepare a casa, que ela trabalhe nas estruturas para os filhos que virão. Não é para aguardar o cumprimento da promessa. É para investir nele.
Quem espera passivamente será atropelado pelo amanhã. Quem prepara o amanhã, desfrutará dele. O que você está fazendo de prático para que as promessas de Deus se cumpram em sua vida? A bênção precisa de uma estrutura, o vinho de um odre novo.
Preparar-nos para o que Deus está falando é a melhor demonstração de fé que podemos dar. Quando não agimos sobre a palavra, em realidade não cremos.
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