Caim protagonizou a primeira cisão de relacionamentos na História. Ao matar seu irmão Abel, ele tornou-se um ícone daqueles que fracassam no desafio da convivência.
Disse Caim a Abel, seu irmão: Vamos ao campo. Estando eles no campo, sucedeu que se levantou Caim contra Abel, seu irmão, e o matou. Gênesis 4:8
Lendo Gênesis 4, podemos entender como isso aconteceu.
Recebido como um presente de Deus no seio de sua família, Caim tornou-se uma expressão de desonra e miséria. Maldito, empobrecido, fugitivo, errante, aflito e afastado de Deus” são os adjetivos que lhe vestem nos versos 11-13.
Caim fracassou numa das práticas mais básicas da vida humana: a convivência. A não ser que aprendamos a conviver, a manter alianças e nos relacionar ricamente com nossos irmãos, não temos como provar a plenitude da vida de Deus. A Cruz tem dois sentidos (horizontal e vertical). Ela nos reconcilia com Deus, mas também com nossos irmãos e uma relação depende fortemente da outra.
Caim manifestou uma “síndrome” que tem destruído a vida e o relaciona-mento de muitos cristãos ainda hoje. São inúmeras as pessoas que deixam o lugar da bênção por questões de relacionamento. Vão se entregando a argumentos da alma e do inferno até se verem longe de Deus.
O que eu vou chamar aqui de síndrome de Caim é um conjunto de enfermidades espirituais e emocionais que vão se sucedendo, destruindo nossa capacidade de relacionamento com as pessoas e nossa comunhão com Deus.
Vejamos quais são os problemas dessa síndrome que leva tantos ao isola-mento é à infelicidade... O primeiro deles é uma RELIGIOSIDADE DESPROVIDA DE ESPIRITUALIDADE. Tudo começou com a fragilidade do relacionamento que Caim mantinha com Deus. Ele não estava disposto a relacionar-se com o Senhor no nível do melhor. Oferecia qualquer coisa para Deus e esperava ser abençoado e reconhecido. Os versículos 3 a 5 dizem que ele trouxe uma oferta “ao cabo de dias” ao Senhor, enquanto seu irmão Abel trouxe das primícias do seu rebanho. O resultado foi que Deus abençoou a Abel, mas para Caim nem atentou.
As pessoas que manifestam problemas de convivência na igreja, quase sempre trazem por trás disso um relacionamento pobre com o Senhor. Quando não estamos dispostos de dar a Deus o melhor das nossas vidas, tampouco admitimos o melhor para o nosso irmão. Caim escolheu servir a Deus com reservas. Sua oferta, que revelava o seu coração, era de restos. Ele pensava que, para o Senhor, qualquer coisa servia... Essa é a proposta da religião e o resultado dela é que não somos honrados.
A síndrome de Caim sempre começa aqui. A falta de um relacionamento intenso com Deus leva o homem a ter mais dificuldade com seus irmãos. A carne sempre prevalece quando nosso espírito não é fortalecido pela comunhão com o Pai. Religiosidade não preserva alianças. Espiritualidade, sim.
O agravamento do problema se deu quando Caim revelou INCAPACIDADE DE SUPERAR SEUS PRÓPRIOS FRACASSOS. Ele teve um insucesso, fez uma semeadura insuficiente e não colheu o fruto que esperava. Todo mundo vive isso, de uma maneira ou outra, mais cedo ou mais tarde. Seu problema foi assimilar a falta de resultados, não como um desafio a ser vencido, mas como um atestado de incompetência. A Bíblia diz que, diante da tentativa não reconhecida, “irou-se Caim fortemente e descaiu-lhe o semblante”. Estava na cara o seu mau humor...
Ninguém passa pela vida sem perdas, reprovações e fracassos. A grande chave é olhar para os fracassos como um desafio à mudanças. Quando o insucesso nos leva ao “buraco negro das emoções”, gerando em nós complexos de rejeição, estamos adoecendo perigosamente. Você se lembra de Pedro, isolando-se após negar a Jesus. Ele estava com a síndrome de Caim.
O complexo de inferioridade levou Caim a um problema mais grave: a DIFICULDADE DE ACEITAR O SUCESSO DO OUTRO. Não foi só a sua reprovação que afetou o humor de Caim, mas a honra que o Senhor direcionou a Abel.
A perspectiva de Deus para nós é “chorai com os que choram, alegrai-vos com os que se alegram”. Emoções compartilhadas são um sinal de saúde interior. Quando somos incapazes de viver assim, estamos doentes. Ora, a inveja é o sinal mais claro de que as fontes da convivência estão adoecidas na vida de alguém (faça uma análise da relação entre José e seus irmãos, entre Davi e Saul, e você verá isso ilustrado). Quando o melindre se manifesta em nós, ao vermos o outro sendo exaltado, temos um grave problema.
Ao assumirmos rótulos por nossos insucessos e nos entregarmos à insatisfação diante do êxito dos nossos irmãos, permitimos que a amargura comece a se revelar em nossas atitudes. Nesse nível da síndrome, nossa enfermidade interior começa a se manifestar em nossas atitudes e comprometer os ambientes em que transitamos. A ira, a insatisfação, a murmuração, o negativismo são formas pelas quais revelamos um coração adoecido. Quando o nosso semblante já mostra nosso estado de amargura e nossas palavras saem temperadas de agressividade, estamos muito mal. Ou reconhecemos nosso estado, mergulhamos no arrependimento e buscamos uma cura em Deus, ou acabaremos tomando decisões que estragarão a nossa vida e, talvez, a de outros.
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