Então, Esaú correu-lhe ao encontro e o abraçou; arrojou-se-lhe ao pescoço e o beijou; e choraram. (Gênesis 33:4)
Ao longo da vida às vezes esquecemos atrás de nós pontes quebradas que nos impedirão de viver o melhor de Deus. É triste perceber que muitos cristãos deixaram na sua história alianças e relacionamentos destruídos, alguns deles vitais para o cumprimento pleno do projeto de Deus em suas vidas. São casamentos desfeitos pela infidelidade, são pais que feriram a alma de seus filhos com a brutalidade, seja da violência ou da indiferença; são filhos que num momento de loucura ou imaturidade cuspiram no prato onde haviam comido e, rebelando-se, deixaram atrás de si pais desiludidos; são ovelhas que se esqueceram da aliança e se desgarraram pelas veredas tortuosas da independência, abandonando o aprisco e o pastoreio que Deus lhes tinha provido para sua segurança... Enfim, não é preciso andar muito para encontrar alguém que, num momento de precipitação, rompeu um relacionamento abençoado pelo Senhor.
Jacó trilhou esse caminho. Ainda jovem, dominado por um caráter egocêntrico e desprezando princípios divinos, este homem manipulou sua mãe, enganou seu pai e traiu seu irmão Esaú, roubando o que lhe pertencia. O resultado de suas desastrosas escolhas foi um ódio mortal por parte de Esaú que desembocou na cisão da família, com Jacó fugindo para a longínqua Padã-Harã, onde tinha parentes de segundo grau.
Foram vinte anos de separação... Naquela terra distante, Jacó casou-se, teve filhos e prosperou, adquirindo riquezas. Sua vida, porém, permanecia mutilada, muito aquém daquilo que o Senhor havia projetado. Aquela aliança desfeita precisava ser reconsiderada, aquela ponte quebrada teria que ser reconstruída.
Não seria simples. Voltar atrás quase sempre implica em muitos desafios. Para Jacó, significava não só a quebra do seu próprio orgulho, mas a exposição de sua vida e de sua nova família aos riscos da rejeição e até mesmo da morte, tal era o ódio que suas velhas decisões provavelmente deixara no coração de seu irmão.
Aquela viagem de volta a Canaã foi extremamente difícil em face às perspectivas sombrias que, com certeza, povoaram a mente de Jacó. Mas ele a fez até o fim. O desfecho, com Esaú perdoando-o e recebendo-o com choro e abraço, não era provável. Aliás, a coisa terminou assim porque houve um verdadeiro milagre de Deus. Sem uma intervenção sobrenatural, algumas pontes nunca seriam reconstruídas...
O milagre, porém, é quase sempre a resposta de Deus à atitudes do homem. Jacó nos ensina a refazer alianças, mesmo aquelas que parecem esmiuçadas, impossível de se restaurar.
Em primeiro lugar esse homem, diante de uma palavra de Deus, decidiu fazer a coisa certa. Depois de vinte anos de fuga, o Senhor lhe falou ao coração para voltar. Jacó poderia ter feito “ouvidos de mercador”. Considerando a condição razoável de vida que havia conquistado e os riscos que correria se tentasse um reencontro, ele poderia decidir não obedecer e seguir mutilado desse relacionamento. Mas não foi isso que ele fez. Contra todos os temores, resolveu voltar e não fez disso apenas uma tentativa, mas uma decisão. Poderia ter mandado alguém para sondar o terreno, poderia ter ido só, para não arriscar a pele de suas mulheres e filhos, mas preferiu juntar tudo o que tinha conquistado e investir nessa aventura da reconciliação.
Há muito milagres esperando uma decisão. Há casamentos que só serão restaurados se alguém tiver coragem de enfrentar o passado. Há corações de filhos que só serão sarados quando pais decidirem “descer do pedestal” e assumir seus próprios erros. O mesmo vale para líderes e pastores que afugentaram discípulos preciosos. Há também ovelhas que ficarão vagando de um lado para o outro até que se quebrantem o suficiente e voltem para o lugar de onde nunca deveriam ter saído... Assim como Lázaro, morto por quatro dias, há amizades, relacionamentos e alianças que nunca ressuscitarão, a não ser que alguém decida remover a pedra e encarar a situação.
É claro que a decisão de voltar e buscar uma reconciliação sempre exigirá daquele que errou um espírito quebrantado, uma postura de humilhação. Muitos querem recuperar seus postos e relacionamentos sem mudar de atitude, na tentativa ilusória de zerar o passado sem enfrentá-lo. Isso não funciona! Jacó entendeu assim e voltou se curvando. Enviou mensageiros a Esaú chamando-o de “meu senhor” e assumindo a condição de “seu servo”. Bem diferente do homem presunçoso e usurpador que um dia havia deixado aquela terra... Sua mudança se torna ainda mais visível quando ele finalmente avista Esaú. Diz a Bíblia que “ele mesmo, adiantando-se, prostrou-se à terra sete vezes, até aproximar-se de seu irmão” (Gn 33:3)... Quem quer reconstruir pontes, precisa aprender a se curvar.
Há ainda algo fundamental para quem se aventura a levantar de novo a ponte de um relacionamento quebrado: o desejo de restituir. Muitas vezes, apenas pedir perdão não é suficiente. É preciso devolver, ainda que em parte, aquilo que foi usurpado, tentar reparar o estrago causado. É por isso que Jacó, aquele que um dia só pensou em tirar e espoliar, agora volta e se faz preceder de muitos presentes (Gn 32:13-21). E para você que pensa tratar-se apenas de esperteza com o fim de aplacar a ira de Esaú, surpreenda-se com a insistência, mesmo depois de ter conquistado o perdão, para que seu irmão aceitasse suas dádivas (Gn 33:8-11). Sim, porque aquele gesto não representava apenas um pedido de clemência, mas um desejo de abençoar, de devolver, de reparar os danos do passado.
Não sei se quando você olha para trás enxerga pontes caídas. Se há e você tem consciência de que um dia elas foram levantadas por Deus, vale à pena voltar e tentar reconstruir.
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