É verdade que no dia 25 de dezembro uma parte considerável do mundo faz alusão ao natal de Jesus, mas para a maior parte das pessoas Ele não passa de um figurante quase fora do cenário.
E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai. João 1:14
Os primeiros versículos do Evangelho de João lançam luz na eternidade passada: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele e sem Ele nada do que foi feito se fez”. Essas expressões se referem a Jesus em seu estado eterno. Ele é o Logos de Deus, a Palavra que operou a criação de tudo o que existe no Universo. Elas revelam a grandeza, o poder, a divindade do Unigênito do Pai. Aquele que não teve começo e nunca terá fim, o Alfa e o Ômega, o que tem o poder de fazer vir à existência o que não existe.
Essa revelação entra num contraste brutal quando no versículo 14 João diz: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós”. Esse foi o mais impressionante downgrade da história de Deus. O Divino, o Todo-Poderoso, o Eterno se fez homem, limitado, mortal. Aquele que não poderia ser contido por nenhum espaço mensurável, nasceu numa manjedoura, na pequena vila de Belém, arredores de Jerusalém.
As profecias acerca desse evento fantástico estavam cumpridas. Isaías foi um dos que anteviram o milagre. “Portanto, o Senhor mesmo vos dará um sinal: eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe chamará Emanuel” (Is 7:14). E ainda: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (IS 9:6).
Naquela noite de natal, dois mundos pareciam conviver sem se darem conta um do outro. Exatamente como hoje. Num desses mundos, os anjos se movimentavam eufóricos e proclamavam: “Glória a Deus nas maiores alturas e paz na terra entre os homens a quem Ele quer bem” (Lc 2:14). Quanto aos humanos, apenas os que viviam conectados ao céu, como os magos que viram uma estrela brilhante no Oriente e a seguiram na direção do Rei nascido, ou como os pastores que no campo cuidavam de suas ovelhas, mas tinham ouvidos para ouvir as milícias celestiais, perceberam a sublimidade daquele momento. No outro mundo, este que conhecemos muito bem, tudo corria na mais previsível rotina: religiosos vazios enchiam templos mofados com suas orações enfadonhas, pessoas se movimentavam de um lado para outro em busca de seus próprios desejos, estalagens fechavam suas portas, lotadas de gente que não tinha nada mais a fazer do que correr atrás de si mesma e governantes se preocupavam apenas em garantir seu próprio pedestal. Tudo e todos absolutamente alheios ao maior evento da História até então, a encarnação do Verbo, o nascimento do Filho de Deus, Jesus Cristo, homem.
Já mais de vinte séculos se passaram desde então e as coisas não mudaram muito. É verdade que no dia 25 de dezembro uma parte considerável do mundo faz alusão ao natal de Jesus, mas para a maior parte das pessoas Ele não passa de um figurante quase fora do cenário. Como naquela noite da Judéia, há muito movimento, mas poucos estão à procura do Rei nascido. Hotéis seguem lotados, governantes preocupados em aparecer na foto e pessoas não se ocupam com nada mais do que aquilo que podem ganhar.
Mas o mundo dos anjos, dos magos e pastores continua aí. O mundo do Espírito. Basta olharmos para o céu ou aguçarmos nossos ouvidos e perceberemos sinais e vozes apontando para o que aconteceu naquela estrebaria de Belém: o Eterno se fez mortal para que os mortais se tornassem eternos.
Era apenas o começo de uma caminhada que durou trinta e três anos e que culminaria no evento mais importante de todas as eras: a Cruz. Mas não haveria morte vicária se não houvesse natal; não haveria sacrifício remidor, se não houvesse encarnação. Essa verdade perturba o império das trevas. Os demônios não se importam de que creiamos que Jesus era apenas um espírito evoluído, ou um bom homem, ou mesmo uma sombra de Deus. Mas quando dizemos que Ele era 100% Deus que se fez 100% homem, todas as bases do inferno tremem, pois é dessa verdade que vem a nossa redenção.
Sabemos ser improvável que o Messias tenha nascido numa noite de 25 de dezembro. Sabemos também que pinheiros, guirlandas, velhinhos de trenó e glutonaria são elementos idólatras de um natal pagão. Nada têm a ver com Bíblia e Cristianismo. Nenhum motivo, porém, temos para ignorar o Natal. E já que o mundo usa o evento para festejar sem Cristo, porque nós não o usamos para recordar-nos de que o amor de Deus o levou ao cúmulo da encarnação?
Sim, há uma maneira de se comemorar o Natal de Jesus na dimensão verdadeira. É só levantarmos os olhos e vermos as estrelas que apontam para a Graça. É só enchermos nossos ouvidos de boa vontade e nos juntarmos à voz dos anjos, dando glória a Deus nas maiores alturas. É só separarmos o melhor que temos, o ouro, o incenso e a mirra do nosso coração para oferecermos ao Rei que nasceu em Belém. Afinal, foi ali naquela manjedoura que começou a plenitude dos tempos, foi ali naquela estrebaria que a eternidade acenou para nós.
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