Espiritualidade, testemunho sólido, unidade e bênção. Mesmo com um quadro tão favorável, há um ponto da história em que a abençoada família de Noé vive uma crise e sofre uma cisão que comprometeria as gerações vindouras.
Despertando Noé do seu vinho, soube o que lhe fizera o filho mais moço e disse: Maldito seja Canaã; seja servo dos servos a seus irmãos. Gênesis 9:24-25
A casa de Noé era uma casa de paz. Tudo ali revelava a estrutura de uma família próspera e abençoada por Deus. O patriarca era um homem espiritual. Poucos na Bíblia, aliás, mereceram referência tão sólida: “Noé era homem justo e perfeito em suas gerações; Noé andava com Deus”. Este é o testemunho das Escrituras a seu respeito.
Além disso, aquela família tinha uma história de unidade. Noé, sua esposa, filhos e noras haviam levantado juntos grandes coisas. A arca que os livrou do dilúvio fora um projeto do céu desenvolvido ao longo de muitos anos e só viabilizado porque todos naquela casa creram e se mostraram dispostos a investir suas vidas em obediência à palavra do Senhor.
Eles haviam superado grandes desafios juntos. Os longos anos de construção da arca e incompreensão por parte dos incrédulos, a visão de toda uma geração sendo destruída por causa de seu pecado, os dias de apreensão e ansiedade a bordo de um barco que os levava para não se sabia aonde, o desafio de recomeçar o povoamento da terra após uma catástrofe... Tudo isso constava no currículo dessa família que superara tantas dificuldades sem perder sua coesão e unidade.
Como se não bastasse, Noé e sua casa estavam debaixo de promessas maravilhosas de Deus. Boa parte do capítulo 9 de Gênesis é dedicada à aliança que o Senhor fez com eles, desenhando um horizonte promissor para o seu futuro.
Espiritualidade, testemunho sólido, unidade e bênção. Mesmo com um quadro tão favorável, há um ponto da história em que aquela abençoada família vive uma crise e sofre uma cisão que comprometeria as gerações vindouras. A paz que parecia tão consolidada não foi preservada, exatamente como acontece em inúmeras casas cristãs hoje.
Uma avaliação dos fatos nos mostrará que tudo poderia ter sido evitado e a trajetória de bênçãos daquela família não teria sido maculada. Bastaria evitar algumas brechas...
Tudo começou com uma embriaguez. A Bíblia diz que Noé se embebedou com o fruto da vinha que plantara (Gn 9:20-21) e, como consequência disso, se mostrou em atitude vergonhosa. E como as atitudes dos pais sempre têm repercussões maiores dentro de uma família, o que daí se desencadeou foi trágico.
Isso me faz pensar em quantas coisas podem nos embriagar, ou seja, nos tirar do equilíbrio, nos roubar a consciência, arrebatar nossa sobriedade moral e espiritual. Lares de bons crentes têm sido destruídos assim. Uma paixão não dominada (como no caso de Davi), uma mágoa não resolvida (como ocorreu com Absalão), uma amizade enviada do inferno, a busca ou a conquista das riquezas ou do status, o orgulho... Qualquer uma dessas coisas traz em si o poder do entorpecimento. Se um homem de Deus brinca com elas, admitindo-as além do que convém, pode esquecer princípios que o mantiveram em pé por longo tempo, e cair na vergonha.
Chama a atenção o fato de que Noé se embebedou com o fruto da própria vinha que plantou. Sua embriaguez foi literal, mas ela representa a experiência de todos aqueles que permitem que uma conquista se torne em calamidade. Em outras palavras, deixam que seu sucesso se torne a fonte do seu fracasso. Quando o êxito “sobe à cabeça” de um homem de Deus, ele está prestes a fazer bobagens.
Tenho visto versões desta história na vida de pessoas que humildemente buscavam sucesso profissional, mas quando o conseguiram, perderam a noção da dependência e se afastaram do Senhor. Há também aqueles que caíram pelo orgulho religioso, que depois de galgarem degraus no reconhecimento de seus ministérios, se acharam acima do bem e do mal e, do alto do pedestal no qual admitiram subir, foram arrojados à humilhação.
O pior é que ninguém está livre disto. Nem eu e nem você! Ou seríamos melhores do que o “justo” Noé, selecionado por Deus como o modelo no meio de toda uma geração? Seria pura jactância da nossa parte... O único antídoto para a embriaguez é a vigilância diária, a cruz cotidiana que precisamos colocar sobre os ombros a fim de não negociarmos a nossa consciência cristã.
Agora, Noé errou. Infelizmente, esta foi a realidade e agravada pelo fato de ser ele o líder daquela casa. Mas, e aí? Quando o pecado acontece, quando alguém erra numa "casa de paz", tudo está perdido? Não, se aquela família decidir investir restauração. Infelizmente, não foi o que aconteceu aqui...
Alguém naquela casa preferiu agir como um estranho. O erro de Noé foi amplificado na atitude irreverente do filho, Cão, que tratou com leviandade e impiedade a conduta vergonhosa daquele ancião (conf. Gn 9:22-23). Esse homem esqueceu-se de toda uma história piedosa e exemplar que acompanhava seu pai, e julgou-o apenas por seu erro.
Não devemos avaliar as pessoas com quem temos uma aliança por um momento, ou mesmo por um período negro em suas vidas. É preciso levar em consideração uma história. Não se joga uma pedra preciosa no lixo porque ela se sujou!
Cão tomou o caminho do descompromisso, como se o fracasso de seu pai não dissesse respeito à sua própria vida. Ele escolheu a rebeldia, tratando de fazer do fato, não um motivo de restauração, como fizeram seu irmãos, mas um argumento para a maledicência e o desrespeito. Cão preferiu lavar suas mãos, ou melhor, atirar pedras.
Ele deveria ter andado em unidade com seus irmãos, que proveram uma cobertura de restauração. E que fique claro que cobrir não é encobrir. Sem e Jafé, os outros dois filhos de Noé, foram proativos em buscar uma solução para o problema e não para expor o problema como justificativa para si mesmos (do tipo, não temos nada com isso).
Pena que a consolidação do fracasso naquela família se deu pela falta de quebrantamento de quem errou primeiro. É quando Noé sai do torpor de sua bebedice que o curso de bênção naquela casa é desviado para sempre. Ao ter consciência do estado em que estivera e dos desdobramentos em seu lar, esse homem prefere endurecer-se a quebrantar-se (leia os versículos 24 a 27).
Noé, o homem de Deus, poderia restaurar tudo com uma postura de quebrantamento, confissão e arrependimento, mas não foi essa a sua escolha. Antes, preferiu entrincheirar-se na sua autoridade e amaldiçoar o filho que “pegou carona” no seu pecado, lançando pragas sobre sua descendência... Daquele dia em diante, aquela casa nunca mais voltou a ser, com todas as letras, uma casa de paz.
Ao considerar e abençoar apenas aqueles que não reverberavam o seu pecado, Noé decidiu-se pela cisão de seu lar. Sua atitude orgulhosa e parcial, fez com que grande parte da própria herança que Deus lhe prometera fosse perdida para sempre.
O que fica como lição em tudo isto? Se queremos seguir desfrutando da bênção de Deus, é melhor nos mantermos sóbrios e vigilantes. Mas se errarmos, assumir a culpa e pedir perdão pode ser a única chance para um recomeço, ou para não perdermos para sempre a paz em nossas casas.
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