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O discípulado e o vento norte

 

Em seguida obrigou os seus discípulos a embarcar e passar adiante para o outro lado, a Betsaida, enquanto ele despedia a multidão. - Marcos 6:45

Qualquer um que vá à Terra Santa não poderá perder a oportunidade de atravessar o Mar da Galiléia, cenário de muitos episódios envolvendo Jesus e seus discípulos.

O Mar da Galiléia é na verdade um grande lago no coração de Israel. Suas águas tranqüilas, que num começo de manhã de Primavera mais parecem um enorme espelho a refletir o azul do céu e a silhueta das montanhas que o emolduram, podem vez por outra empolar-se e levantar ondas bravias. Quando o conhecido “vento norte” resolve tomar ímpeto nas encostas das montanhas e arrojar-se sobre as águas tranqüilas do lago, o ambiente pode mudar em minutos. De repente, a calmaria dá lugar a ondas bravias e qualquer um que for apanhado de surpresa estará em apuros.
Jesus havia tido um dia especial com seus discípulos à beira do lago. A multidão, suprida de milagres e feliz, estava pronta a voltar para suas aldeias de origem e contar as cenas inesquecíveis daquele dia. Os doze, entusiasmados e exaustos, sonhavam agora com uma boa cama e a cumplicidade de um travesseiro para compartilhar as imagens indeléveis daquele povo todo se saciando com o milagre da multiplicação de pães e peixes.

Esperavam ter a companhia do Mestre no retorno pra casa, mas este sentia uma forte necessidade de estar a sós com o Pai. Assim, diz a Bíblia que “os obrigou” a entrar no barco e navegar adiante d’Ele para o outro lado, enquanto despedia a multidão e se reservava em oração.

Os discípulos obedeceram... Quase sempre temos a impressão de que a obediência nos guardará de aflições. Embora Deus nunca tenha nos prometido isto, criamos a expectativa de que há uma isenção na fidelidade. Acontece que o “vento norte” pode vir a qualquer momento sobre fiéis ou infiéis. Ele é da vida.

De repente, o mar rebelou-se, açoitou o pequeno barco e suas águas pareciam dispostas a invadir o espaço de segurança daqueles homens de Deus. Todos se apavoraram. Dos pescadores experientes aos marinheiros de primeira viagem, todos perceberam que estavam chegando ao limite das possibilidades.

Quem sabe, pensamentos estranhos começaram a assaltar-lhes a mente. Onde estaria o seu líder? Teria Ele falhado na direção que dera, expondo-os à desgraça? Se não tivessem obedecido, estariam vivendo tamanha aflição? A aliança de Jesus com eles estava falhando? Acabaria ali, no fundo do mar, os sonhos e o investimento de cada um?

Depois de lutarem muito, resistindo às ondas, ao vento contrário e à tempestade interior de medos e dúvidas, aqueles homens viram um vulto andando sobre águas em sua direção. Estavam tão apavorados que chegaram a cogitar em assombração, mas não demoraram para perceber que era o seu Amado que, na quarta vigília da noite, viera ao seu encontro.

Há muitas lições e se tirar dessa passagem. Ela pode ser avaliada sob diversas óticas: a dos discípulos que passaram por terrível aperto e depois maravilhoso livramento, a de Deus que tem sempre uma solução sobrenatural quando o natural não perece mais apresentar nenhuma chance, mas eu gostaria de avaliá-la sob a ótica do líder e discipulador Jesus.

Em primeiro lugar, O vemos preocupado em fazer com que seus discípulos estivessem intensamente envolvidos com a obra e os milagres que ela demanda. Aquele dia passado fora inesquecível, não só porque Jesus fizera um grande milagre, mas porque eles haviam se tornado “sócios” de tudo o que ocorreu. Desde o momento em que o Mestre lhes dissera “dai-lhes vós mesmos de comer”, eles passaram a ser agentes do sobrenatural e não apenas expectadores embasbacados de um líder fenomenal.

Como precisamos aprender a fazer discípulos com Jesus! Ele estava sempre procurando envolvê-los, mostrar que de suas mãos, mesmo inexperientes, coisas tremendas poderiam acontecer. Embora pudesse centralizar tudo em si, não o fazia, preferindo desafiá-los e até mesmo forçá-los a envolverem-se. Às vezes gastava mais tempo, mas se realizava em perceber que sua equipe estava se tornando cada vez mais participativa e motivada.

A segunda coisa que me chama a atenção no discipulador Jesus é sua capacidade de perceber os limites de seus discípulos. A Bíblia diz que ele “os obrigou” a entrar no barco e voltar para casa, enquanto se dedicaria a uma noite de oração. Poderia requerer deles companhia em mais essa empreitada espiritual, cobrar-lhes oração (como em outras ocasiões o fez), mas percebeu que estavam exaustos e, tendo feito um bom trabalho naquele dia, mereciam e careciam de repouso.

Não raramente cobramos dos nossos discípulos além do que eles podem dar. Olhamos única e exclusivamente para os resultados e não tememos arrebentar a equipe com exigências que transcendem suas possibilidades ou saúde.

Não estou falando de criarmos um grupo indolente e mole. Jesus trabalhava muito e seus doze também. Entretanto, como líderes, precisamos desenvolver a sensibilidade de perceber os limites e carências de nossos discípulos. Alguns deles são tão dedicados ou motivados que darão tudo de si, até se exaurirem, para corresponder ao chamado. Se quisermos tê-los produzindo por muito tempo, teremos às vezes que obrigá-los a descansar, a pisar no freio, a investir na família, a voltar pra casa. Um bom discipulador é aquele que frequentemente rompe a alva com uma voz desafiadora, dizendo: - Acordem, rapazes, temos um dia de muito trabalho pela frente! Mas é também aquele que sabe dizer com a mesma veemência: - Hora de dormir, pessoal!

A última grande lição que aprendo nesse episódio com o discipulador Nazareno é o cuidado de nunca perder sua equipe de vista. Mesmo no meio da noite, mesmo absorvido em seu tempo devocional, Jesus não se esqueceu de sua equipe, seus amigos. Diz a Bíblia que, “vendo-os embaraçados em remar”, saiu-lhes ao encontro. Não sei como isso aconteceu. Talvez tenha percebido da margem, nas sombras da noite, a tempestade ao longe enfurecendo o mar. Ou quem sabe tenha sentido um forte peso de oração, uma carga especial enquanto intercedia por eles. O fato é que os viu aflitos e se moveu para socorrê-los.

Temos que mandar nossos discípulos a muitos destinos. Às vezes os obrigaremos a servir, correr, trabalhar. Às vezes os obrigaremos a parar. Seja o que for, temos uma responsabilidade com eles, uma obrigação de não esquecê-los, de não perdê-los de vista, porque o “vento norte” pode vir a qualquer momento, inclusive sobre os fiéis, aqueles que estão na rota da tempestade somente porque escolheram nos obedecer.

 
Pr. Danilo Figueira